Feliz aniversário, Becca Fitzpatrick!

Hoje, dia 03 de fevereiro, é um dia importantíssimo para os fãs da Saga Hush, Hush! Becca Roberts Fitzpatrick, nascida em Utah, foi um presente para sua família e irmãos. Desde pequena se interessava por histórias, mas não necessariamente em ser uma escritora. Quem se lembra da famosa história de que Becca gostaria de ser uma espiã?

Becca tentou várias outras profissões, desde ser secretária à professora, até que seu marido, Justin, a inscreveu em um curso de redação – devemos muito à ele! – e foi daí que seus livros e suas brilhantes ideias para suas histórias surgiram.

Sem seus livros, nós com certeza não estaríamos aqui hoje. E é por isso o motivo deste pequeno texto, mas que significa muito.

Não sabemos muito sobre a vida pessoal de Becca, mas não podemos deixar de desejar que ela comemore com a família e as pessoas que ama, que seja feliz e que continue a fazer o que mais gosta: escrever novas histórias.

Becca completa hoje 38 anos, e desejamos toda a felicidade do mundo para ela!

Feliz aniversário, Becca Fitzpatrick!




“HUSH HUSH ON NETFLIX” vira trending topic no Twitter!

Em mais uma ação conjunta do fandom Husher, nós conseguimos fazer a tag HUSH HUSH ON NETFLIX estar entre os assuntos mais comentados do Twitter brasileiro!

O objetivo da tag era chamar a atenção da empresa de streaming de série e filmes Netflix, para que a mesma se interesse na saga Hush, Hush e produza uma série baseada nos livros. Veja o print abaixo:

Até o momento do fechamento deste post, a empresa Netflix não havia se pronunciado, nem mesmo Becca. Entretando, Jenn, sua assistente, agradeceu o esforço dos fãs no Twitter:

 

Coração para todos os incríveis fãs de #HushHush! Especialmente aqueles que subiram HUSH HUSH ON NETFLIX! Vocês são os melhores.

Não podemos esquecer de agradecer ao pessoal incrível do Hush Hush Squad pela ideia e organização da tag!




ESPECIAL HHBR: Leia os 5 primeiros capítulos de Dangerous Lies traduzidos

Como já é ciente de muitos fãs, Becca lançou no ano passado um livro chamado “Dangerous Lies”. Porém, até hoje, esse livro não foi lançado em nosso país. Sempre perguntamos à editora Intrínseca se eles pretendem lançar este livro aqui, mas a resposta é sempre a mesma: eles não sabem. Então, para ajudar os fãs, decidimos traduzir os 5 primeiros capítulos do livro. Esses capítulos foram divulgados pela editora da Becca, a Simon & Schuster. Leia abaixo:

AGRADECIMENTOS

Primeiro e sempre, obrigada aos garotos Fitzpatrick: Justin, Riley, e Jace.

Obrigada à Jenn Martin, que trabalha incansavelmente atrás das câmeras para eu poder focar na escrita.

Sou grata à minha equipe da Simon & Schuster: Jon Anderson, Justin Chanda, Anne Zafian, Mekisha Telfer, Lucy Ruth Cummins, Chrissy Noh, Katy Hershberg, Dorothy Gribbin, Jenica Nasworthy, Chava Wolin e Angela Zurlo.

Um salve para Zareen Jaffery, editor extraordinário.

Eu devo à minha editora e meu revisor, Katharine Wiencke e Adam Smith, respectivamente, um muito obrigada.

Catherine Drayton, têm sido 7 selvagens e emocionantes anos. Obrigada por me dar uma chance. Lyndsey Blessing e a equipe no InkWell Management: obrigada por seu apoio!

Para as muitas bibliotecas e livrarias que levaram meus livros às mãos dos leitores: considere isso um obrigada a vocês.

Obrigada a Matt Epley por responder minhas perguntas relacionadas à beisebol.

Obrigada à Cameron e Rebecca Chin por fornecer informações sobre o mundo de caubóis de rodeio e vida na fazenda.

Obrigada à Erin Tangeman por me ajudar com alguns inquéritos relacionados à lei.

Obrigada a Rob Baer por responder minhas questões sobre tornozelos quebrados – mesmo se você pedir uma parte bem grande dos royalties como compensação.

Obrigada a Jason Hales, que, espero, acredite em segundas chances.

Laura Anderson, Ginger Churchill, e Patty Esden: Abraços de longa distância funcionaram surpresamente bem em manter nosso grupo junto. Amo vocês agora e para sempre.

Finalmente, um sincero obrigada a você, meu querido leitor. Se você está lendo meus livros através dos anos, ou está me dando uma chance agora, tem sido um prazer escrever para você. Eu espero que você goste da história de Chet e Stella.

CAPÍTULO 1

Uma batida violenta sacudiu a porta do quarto do motel. Eu fiquei perfeitamente imóvel no colchão, minha pele estava quente e pegajosa. Ao meu lado, Reed puxou meu corpo para o dele.

Muita coisa para dez minutos, eu pensei.

Eu tentei não chorar enquanto aninhava meu rosto na quente curva do pescoço de Reed. Minha mente absorveu cada detalhe, cuidadosamente retendo esse momento para eu poder viver de novo em um longo tempo depois de acabar.

Eu tive um impulso selvagem de fugir com ele. Havia um beco ao lado do motel, visível do quarto onde eles me mantém. Detalhes de como onde esconder-se e como nós terminaríamos no fundo do rio Delaware com blocos de cimento presos à nossos pés me impediram de atender a esse impulso.

A batida ficou mais alta. Curvando sua cabeça próxima à minha, Reed respirou fundo. Ele estava tentando lembrar de mim, também.

“O quarto está provavelmente grampeado.” Ele falou tão suavemente, eu quase confundi o som com um sussurro. “Eles disseram para onde estão a levando?”

Eu sacudi minha cabeça de um lado para o outro, e sua face, que estava entrecruzada com cortes e inchada no queixo, abateu-se. “É, nem para mim.”

Por que o seu corpo também estava ferido, ele rolou cautelosamente sobre seus joelhos, olhando ao longo da cabeceira. Ele abriu a gaveta da mesa de cabeceira e abanou as páginas da Bíblia. Ele olhou embaixo do colchão.

Nada. Mas é claro que eles grampearam o quarto. Eles não confiaram em nós para não falar sobre aquela noite, mesmo que meu testemunho era a última coisa em minha mente. Depois de tudo que concordei em fazer para eles, eles não poderiam me dar dez minutos, dez minutos privados, com meu namorado antes deles nos separarem.

“Você está com raiva de mim?” Não consegui não sussurrar. Ele estava na confusão por causa de mim – por causa de minha mãe. Foi um problema com ela que efetivamente arruinou sua vida e futuro. Como ele poderia não estar ressentido comigo pelo menos um pouco? A hesitação dele fez-me sentir uma raiva profunda e sem limites de minha mãe.

Então ele disse, “Não.” Suavemente, mas firme. “Não diga isso. Nada mudou. Nós vamos ficar juntos. Não agora, mas logo.”

Meu alívio veio rápido e certo. Eu não deveria ter duvidado dele. Reed era o único. Ele me amava, e provou novamente que eu poderia contar com ele.

Uma chave raspou a fechadura.

“Não se esqueça da conta Phillies,” Reed sussurrou urgentemente em meu ouvido. Eu encontrei seus olhos. Nos segundos seguintes, nós compartilhamos uma conversa sem palavras. Com um ligeiro aceno, eu disse a ele que entendi.

Então eu apertei meus braços tão forte ao redor dele que ouvi o fôlego sair dele. Eu o libertei assim que o Marechal Adjunto Price empurrou a porta. Dois Buick sedans parados no estacionamento atrás dele.

Ele olhou para nós. “Hora de ir.”

Um segundo policial, um que eu não reconheci, conduziu Reed para fora. Com uma olhada para trás, Reed me abraçou no olhar. Ele tentou sorrir, mas apenas um lado de sua boca subiu. Ele estava nervoso. Meu coração começou a acelerar. Era isso. Última chance de correr.

“Reed!” Eu chamei. Mas ele já estava dentro do carro. Eu não consegui ver sua face através do vidro escuro. O carro saiu da vaga e acelerou. Dez segundos depois eu o perdi de vista. Foi aí que meu coração realmente começou a acelerar. Isso estava realmente acontecendo.

Eu apertei minha mala de mão forte entre meus dedos. Eu não estava preparada. Eu não poderia deixar o único lugar que conheço. Meus amigos, minha casa, minha escola – e Reed.

“O primeiro passo é sempre o mais difícil,” Marechal Adjunto Price disse, levando-me para fora pelo cotovelo. “Olhe por esse lado. Você acaba de começar uma vida nova, reinventar-se.  Não pense no julgamento agora. Não vai precisar ver Danny Balando por meses, talvez anos. Os advogados dele vão amarrar esse caso em vários nós. Já vi a defesa atrasar a data de um julgamento por causa de um passe do pedágio da Via Expressa Schuylkill perdido.”

“Atraso?” Eu ecoei.

“Atrasos levam a absolvições. Regra geral. Mas não dessa vez. Com o seu testemunho, Danny Balando irá para a prisão.” Ele apertou meu ombro com convicção. “O júri acreditará em você. Ele enfrentará a vida sem liberdade condicional, e isso prevalecerá.”

“Ele ficará na prisão até o julgamento?” Eu perguntei dificilmente.

“Preso sem fiança. Ele não chegará atá você.”

Escondida em um local seguro pelas últimas setenta e duas horas enquanto esperava que o traficante da minha mãe fosse denunciado de uma acusação de assassinato de primeiro grau e inúmeras posses de drogas e tráfico, eu que me senti como prisioneira.

Nos últimos três dias, duplas de marechais do exército me vigiaram o tempo todo. Dois pela manhã, outra dupla durante a tarde, e outra dupla no turno da noite. Eu não era permitida receber ou fazer ligações. Todos os eletrônicos foram confiscados. Foi-me fornecido um guarda-roupas com peças incombináveis que um marechal havia pego no meu closet em casa. E agora, como uma testemunha chave em um crime federal que iria a julgamento, já que Danny Balando declarou-se inocente das acusações, eu estava prestes a ser transferida para minha penitenciária final. Paradeiro desconhecido.

“Para onde está me levando?” Eu perguntei.

 Price limpou sua garganta. “Thunder Basin, Nebraska.” Havia uma fraca nota de desculpas em seu tom, que me disse tudo o que eu precisava saber. Foi um negócio de merda. Eu estava ajudando-os a colocar um criminoso perigoso na cadeia, e em retorno, estavam banindo-me da civilização.

“E Reed?”

“Você sabe que não posso contar a você para onde ele está indo.”

“Ele é meu namorado.”

“Isso é como nós mantemos as testemunhas seguras. Eu sei que não é fácil para você, mas estamos fazendo nosso trabalho. Dei a você os dez minutos que pediu. Tive que burlar muitas regras. A última coisa que o juiz quer é que algum de vocês influencie o testemunho do outro.”

Eu estava sendo obrigada a deixar meu namorado, e ele queria um muito obrigada?

“E sobre minha mãe?” Direta, sem emoções.

Price levou minha mala para o porta-malas do Buick, cuidadosamente evitando meus olhos. “Foi enviada para reabilitação. Não posso te dizer onde, mas se ela se esforçar, ela estará pronta para se juntar a você no fim do verão.”

“Nós dois sabemos que não quero isso, então não vamos jogar esse jogo.”

Sabiamente, Price desistiu.

Não havia amanhecido ainda, e eu já estava com calor e grudada em meus shorts e regata. Eu me perguntei como Price poderia estar confortável em jeans e camisa de manga comprida. Eu não olhei para a arma no coldre acima de seu ombro, mas senti sua presença. Era um lembrete de que o perigo não havia acabado. Não tinha certeza se algum dia acabaria.

Danny Balando não pararia de procurar por mim. Ele estava na cadeia, mas o resto de seu cartel de drogas estava vagando livre. Qualquer um deles poderia ser pago para fazer seu serviço. A única esperança dele era me caçar e matar antes de eu poder testemunhar.

Price e eu entramos no Buick, e ele me entregou um passaporte com um nome que não era meu.

“Você não pode voltar, Stella. Nunca.”

Toquei a ponta dos meus dedos na janela. Enquanto saíamos da Filadélfia nas horas pré-amanhecer, passamos por uma padaria. Um menino de avental passava a vassoura em frente à porta. Eu acho que talvez ele tenha olhado para cima, e parou para olhar-me até que me perdesse de visão, mas ele continuou seu trabalho. Ninguém sabia que eu estava indo embora.

Esse era o ponto.

As ruas estavam vazias e pretas brilhantes com a chuva fresca. Eu escutei a água correr sobre os pneus e tentei não perder isso completamente. Isso era lar. O único lugar que conheço. Deixar isso para trás parecia desistir de algo tão vital quanto o ar. De repente, perguntei-me se eu conseguiria fazer isso.

“Meu nome não é Stella,” finalmente disse.

“Normalmente, deixamos a testemunha manter seu primeiro nome, mas o seu é incomum,” Price explicou. “Estamos tomando precauções extras. Seus velho e novo nomes soam similares, o que deve ajudá-la a acostumar-se.”

Stella Gordon. Stell-a, Stell-a, Stell-a. Repeti meu novo nome em minha mente até a sílabas ficarem juntas. Eu odiei o nome.

O Buick acelerou, imergindo na interestadual. Logo, eu vi sinais do aeroporto, e no momento, uma dor feroz agarrou meu peito. Meu voo saía em quatro horas. Estava tendo dificuldade para respirar; o ar negava-se a entrar – era empurrado como algo sólido. Eu limpei as palmas das minhas mãos nas minhas coxas.

Isso não parecia com um novo começo. Estiquei meu pescoço para manter as luzes da Filadélfia em minha vista. Com o carro deixando-as na distância, senti como se minha vida tivesse chegado ao fim.

CAPÍTULO 2

A luz do sol espalhou-se através das milhas do Nebraska, queimando em um ardente rosa-ouro através de um conjunto de nuvens no horizonte. Era quase o pôr-do-sol, e a terra estendia-se, em intermináveis campos de milho interrompidos apenas por crescentes silhuetas de moinhos de ventos ou silos de grãos.

Nada de elegantes arranha-céus brilhando com luzes, fachadas históricas de tijolos das lojas da Rua Principal ornamentadas com propagandas coloridas, e os exuberantes e bem cuidados jardins e estradas sinuosas do subúrbio. Nada de pessoas apressadas para pegar o metrô na cidade baixa, ou buzinas de carros em uma estridente cacofonia de staccatos quando o trânsito piorava.

Agente Price e eu passamos por uma criação de gado na árida estrada, espantando moscas com seus rabos, alguns levantaram sua larga cabeça triangular para olhar curiosamente em nossa direção, fazendo-me pensar qual foi a última vez que viram um carro. Eu abaixei a janela. O ar tinha cheiro verde e vivo e forasteiro enquanto assobiava para dentro do carro. Três garotos sem camisa, magros como vassouras, andavam descalços na estrada, com varas de pesca balançando em seus ombros queimados pelo sol.

Eu pude ouvir a voz de minha melhor amiga Tory Bell em minha cabeça. Eles a enviaram para o livro As Crianças do Milharal. Esqueça sobre traficantes italianos – te dou 24 horas nesse lugar. 

Price disse, “A escola está de férias. Todo o verão para fazer o que quiser. Você teve sorte.”

“Sou sortuda,” eu ecoei.

“Você estará segura aqui.”

Ele esperou por minha resposta, mas nós dois sabíamos que não era seguro. Toda manhã eu acordaria perguntando-me se seria hoje que Danny me acharia.

“Você vai morar com Carmina Songster. Policial aposentada. Muito capaz. Ela conhece a verdade sobre você, e ela viverá sua história secreta.”

“E se eu não gostar dela?”

“Todo mundo gosta de Carmina. Eles a chamam de Gran. A cidade inteira a chama de Gran.”

“E ela vai me proteger?”

Price virou sua cabeça, nivelando seus olhos escondidos por um Ray Ban com os meus. “Um aviso amigo. Como esse verão será só depende de você. Poderá ser miserável ou tolerável. Pô, pode ser até melhor do que tolerável. Eu sei que está com raiva da sua mãe…”

Eu enrijeci. “Não a traga para isso.”

“Carmina pode ligar para ela, quando você estiver pronta. Ela tem o número da clínica.”

Eu olhei para ele com um significativo olhar frio. “Eu disse que não quero falar sobre ela.”

“Você tem o direito de sentir-se traída e machucada, mas sua mãe ficará melhor. Eu realmente acredito nisso. Você não pode desistir dela agora. Ela precisa de você mais do que nunca.”

“E sobre quando eu precisei dela?” Eu rebati. “Eu parei de ter esperanças de que ela melhore há muito tempo atrás. Ela é a razão de eu estar aqui, e não em casa com meus amigos em um mundo que realmente faz sentido.” Minha respiração ficou presa na parte de trás da minha garganta.

Price segurou sua língua por muitos minutos antes de dizer, “Depois de introduzi-la à Carmina, eu tenho que voltar, mas ela sabe como me contatar. Ligue-me qualquer hora.”

“Ela não é minha família. Você não é minha família. Então não vamos jogar esse jogo também.”

Ele permaneceu imóvel, e eu sabia que minha observação tinha machucado. Ele estava colocando sua vida em risco para me proteger; o mínimo que eu deveria fazer era mostrar um pouco de gratitude. Mas eu disse a verdade. Eu era um trabalho para ele. Não éramos família – eu não tinha uma família. Eu tinha um pai distante, que havia negado a oferta dos advogados do governo para participar do Programa de Proteção à Testemunha comigo. Eu nunca ia contata-lo de novo. E eu tinha uma mãe em reabilitação, que eu esperava nunca ver de novo. Família implica amor, compromisso, um senso de solidariedade. E no mínimo implicaria morar juntos.

Nós passamos pelo resto da estrada em silêncio. Eu me afastei de Price, assistindo o sol fundir-se com o horizonte. Eu nunca soube que o sol poderia ocupar tanto espaço. Lá fora, sem prédios ou árvores ou montanhas para bloquear a vista, o sol não era meramente uma esfera; parecia espalhar-se como ouro líquido cintilante, uma grande pincelada de tinta no céu. Era tão deslumbrante quanto estranho.

Depois de escurecer, Price virou para uma estrada de chão. Grãos de areia obscureceram as janelas. Eu me firmei no meu assento enquanto os pneus saltavam sobre buracos. Imponentes, retorcidos algodoeiros enquadraram a estrada, e eu brevemente perguntei-me como seria escalar seus grossos e inclinados galhos até o topo. Quando era criança, eu sonhava em ter minha própria casa na árvore com um balanço de pneu. Mas eu estava muito velha para desejar essas coisas agora.

Então eu percebi a silhueta de uma casa de dois andares. Tinha o maior gramado que eu já tinha visto, com mais algodoeiros subindo até a altura do teto. O gramado dava caminho a campos abertos, a depois deles, eu não conseguia ver nada além de um céu safira pulverizado com estrelas.

Era quase esmagadora, a vastidão disso tudo. Eu me senti completamente sozinha. Eu viajei para o topo do mundo; não havia nada além desse lugar. Mais alguns passos, e eu poderia cair no fim da terra.

Nervosa com o pensamento, abaixei a janela novamente em busca de ar fresco, mas a brisa estava espessa e úmida. Insetos noturnos voavam em um ritmo suave e monótomo. Havia um misterioso e vazio silêncio, ao contrário de tudo o que eu já havia ouvido. De repente eu desejei pelos familiares sons de casa. Eu nunca ia me acostuma a esse lugar.

Price reduziu a velocidade na caixa de correios, checando o número no documento em suas mãos. Tendo confirmado que estávamos na casa certa, ele entrou na entrada de carros de um majestosa casa de fazenda de tábuas brancas.

A casa tinha varanda em ambos os andares, com dois corrimões brancos que corriam ao longo de toda a faixada. Uma grande bandeira americana pendia do segundo andar e balançava gentilmente na brisa. Várias outras pequenas bandeiras fincadas no gramado criaram  um caminho dos degraus da varanda até a entrada de carros ao lado da casa. Ramalhetes de flores coloridas em barris de uísque no fim da estrada.

“Conseguimos,” Price disse, desligando o carro. Ele abriu o porta-malas, onde minha mala esperava.

Eu sabia que tinha que sair do carro, mas minhas pernas não iam se mover. Eu encarei a casa, não conseguindo me ver dentro dela. Eu pensei em minha real casa. Ano passado, como um presente de aniversário – ou, na verdade, como uma desculpa por não conseguir me registrar na aulas de direção por que ela estava ocupada ficando chapada, e o plano funcionou bem – minha mãe contratou uma decoradora para reformar meu quarto. Eu pude escolher tudo. Estantes de livros pintadas de branco, um lustre vintage, paredes azul-turquesa, e uma mesa de mogno Vitoriano que compramos em nossa última viagem para Nova Iorque. Meu diário ainda estava trancado na gaveta de cima. Minha vida estava lá. Tudo estava lá.

Assim que saímos do carro, uma mulher levantou-se do balanço da varanda e desceu os degraus, os saltos de suas botas de caubói vermelhas fazendo barulho na madeira molhada.

“Você achou o lugar,” ela gritou. Ela usava jeans por dentro das botas, que uma camisa jeans com alguns botões abertos em cima. Seu cabelo branco platinado batia nos ombros, e ela nos estudou com intensos olhos azuis. “Apenas tomando um copo de limonada e ouvindo as cigarras. Posso te oferecer uma bebida?”

“Agora, essa é uma oferta que não posso recusar,” Price disse. “Stella?”

Eu olhei para eles. Eles me olharam com cuidado, junto com sorrisos. Sentindo minha cabeça começar a rodar, eu pisquei algumas vezes, tentando acertar o mundo. As botas vermelhas da mulher começaram a rodar como um caleidoscópio, e eu sabia que perderia a luta. De repente eu estava de volta na Filadélfia, um homem sangrando no chão de nossa biblioteca, tecidos humanos salpicados na parede atrás dele. Eu senti o peso da cabeça da minha mãe em meu colo, estranhos e histéricos soluços saindo de minha garganta. Eu escutei sirenes da polícia gritando na rua e meu próprio pulso rugindo em meus ouvidos.

“Talvez você queira que eu te mostre seu quarto, Stella?” a mulher disse, tirando-me das lembranças.

Eu me senti balançando, e Price me pegou pelo cotovelo. “Vamos levá-la para dentro. Longo dia de viagem. Uma noite de sono vai fazer muito bem.”

Recuperando alguns de meus sentidos, eu me soltei dele. “Não.”

“Stella…”

Eu virei para ele. “O que você quer de mim? Você quer que eu beba limonada e aja como se tudo isso fosse normal? Eu não quero estar aqui. Eu não pedi por isso. Tudo o que eu conheço se foi. Eu nunca… Eu nunca vou perdoá-la por isso!” As palavras saíram sufocadas antes que eu percebesse. Meu corpo inteiro sentiu-se tenso e instável. Eu limpei meus olhos, recusando a chorar. Não até eu estar sozinha e poder arriscar desmoronar. Eu apertei a ponta dos dedos com força nas palmas das mãos para tirar a dor do meu coração e focar em um lugar mais manejável.

Antes de eu arrastar minha bagagem para a casa, eu vi a boca da mulher – da Carmina – apertar-se nas bordas, e Price fez uma careta de desculpas como se dizia que não havia o que fazer com comportamento adolescente. Eu não me importei com o que pensaram. Se eles pensavam que eu era egoísta e difícil, eles estavam provavelmente certos. E se eu fizesse desse verão um inferno para Carmina, talvez ela deixasse eu ir embora mais cedo e viver do meu jeito. Não era a pior ideia que já tive.

Price subiu os degraus da varanda para segurar a porta de tela para mim, e Carmina disse, “Talvez é melhor deixar o tour pela casa para amanhã. Cama parece ser a coisa certa agora.”

“Eu não posso ser o único que está cansado,” Price prontamente concordou.

Eu não estava cansada, mas eu queria me trancar atrás de uma porta tanto quanto eles, então eu não argumentei. Eu não me importava se me fiz parecer rebelde. Carmina descobriria logo que mesmo que o Departamento de Justiça tenha me dado uma história falsa e uma nova vida, eu não ia fingir que qualquer coisa sobre isso estava bem.

Dentro, a casa cheirava como água de rosas. Um papel de parede com flores delicadas estava descascando da parede, e eu tive um vislumbre dos sofás na sala de estar – de um veludo azul maltratado. Havia um par de chifres de alguma espécie de cervo pregados acima da lareira. Eu nunca havia visto algo tão do interior e brega.

Carmina indicou o caminho acima na escadaria desgastada. Buracos de pregos pontilhavam parede acima, mas os quadros haviam sido removidos, e pela primeira vez, e me perguntei brevemente sobre Carmina. Quem ela era. Por que ela morava sozinha. Se ela tinha uma família, e o que aconteceu com eles. Instantaneamente, eu calei as perguntas. Essa mulher significava nada pra mim. Ela era uma substituta do governo para minha mãe até eu ter dezoito anos no fim de Agosto e poder legalmente viver do meu jeito.

No topo das escadas, Carmina abriu uma porta. “Aqui é onde você dormirá. Toalhas limpas na cômoda, artigos de higiene básica no banheiro na próxima porta. Amanhã nós podemos ir à loja e comprar algo que eu tenha esquecido. O café-da-manhã é às sete pontualmente. Alguma restrição alimentar que eu precise saber? Você não é alérgica a amendoins, né?”

“Não.”

Ela deu um aceno satisfatório. “Vejo você pela manhã, então. Durma bem.”

Carmina fechou a porta e eu me abaixei na borda da cama de solteiro. As molas chiavam em um tom estranho. A janela estava aberta, deixando entrar uma brisa quente e abafada, e me perguntei por que Carmina não tinha ar condicionado. Ela não deixaria a casa aberta a noite inteira, né? Isso era seguro?

E abaixei e fechei a janela e fechei as cortinas de algodão azul, mas além do calor, o ar abafado era sufocante. Eu levantei meu cabelo para abanar a parte de trás do meu pescoço. Então eu tirei minha roupa e voltei para a cama.

O quarto era pequeno, mal suficientemente para abrigar a cama e uma cômoda de carvalho. O telhado inclinado fazia as paredes parecerem que estavam mais apertadas ainda ao meu redor. Meus olhos registraram a miscelânea de retângulos azuis no teto desbotado onde pôsteres, agora removidos, preservaram a cor original da pintura. Tinta azul, cortinas azuis, roupa de cama azul. E uma empoeirada luva de beisebol na prateleira de cima do closet aberto. Um menino deveria ter vivido aqui. Pergunto-me aonde ele havia ido.

Algum lugar bem longe, certamente. Assim que eu fizer dezoito, eu iria para longe desse lugar também.

Alcançando o bolso da frente da minha mala, eu puxei de lá um pequeno pacote de cartas. Contrabando. Eu não podia trazer nada de minha velha vida, nenhuma prova de que eu tenha vindo da Filadélfia, e eu senti uma emoção com essa pequena rebelião – inesperavelmente. Chame-me de sentimental, mas ultimamente tenho carregado as cartas de Reed para todo lugar. Quanto mais instável minha vida em casa ficava, mais eu achava elas confortantes. Quando me sentia sozinha, elas me lembravam que eu tinha Reed. Ele se importava comigo. Ele me apoiava. Até três noites atrás, eu guardava as cartas em minha bolsa. Eu as movi para a mala para impedir que fossem descobertas. Algumas das cartas eram recentes, mas outras eram de um longo tempo atrás, dois anos, quando Reed e eu começamos a namorar. Prometendo racioná-las, eu peguei uma do início e guardei as outras em seu lugar escondido.

Estella,

Não sei se alguém já deixou um bilhete para você sob seu limpador de pára-brisas, mas parece o tipo de coisa que você acharia romântico. Lembra daquela noite no trem, quando nos conhecemos? Eu nunca te falei, mas eu tirei uma foto escondida de você. Foi antes de você deixar seu celular no seu assento e eu te segui para devolvê-lo (sou um herói). De qualquer modo, eu fingi que estava escrevendo uma mensagem para você não saber que eu estava tirando uma foto sua. Eu ainda a tenho em meu celular.

Eu amo você. Agora faça-me um favor e destrua isso para que eu possa manter minha dignidade intacta.

Reed.

Eu pressionei a carta em meu peito, sentindo minha respiração devagar. Por favor, deixe-me vê-lo de novo logo, eu silenciosamente implorei. Eu não sei por quanto tempo as cartas me manteriam entretida. Mas a carta dessa noite fez seu papel; a solidão saiu do meu corpo, deixando um grande cansaço físico.

Eu rolei para o lado, esperando que o sono viesse rápido. Ao invés, eu fiquei mais consciente no silêncio imóvel. Era um som vazio, esperando para ser preenchido. Minha imaginação não gastou tempo inventando explicações para os suaves estalos das paredes, encolhendo à medida que o calor do dia saía, ou o ocasional baque dos assoalhos. Eu não conseguia esquecer a imagem dos olhos escuros de Danny Balando enquanto caía em um sono profundo.

CAPÍTULO 3

O estrondo de uma máquina de cortar grama atravessou a janela do quarto, que eu havia aberto no meio da noite depois de acordar tonta com o calor e molhada de suor. O gemido das engrenagens ficou mais alto, passando abaixo da janela, e então foi para o canto mais longe do gramado. Eu abri um olho turvo e vi o relógio no criado-mudo.

Aborrecimento e indignação me atingiram. Me libertando dos cobertores, eu coloquei minha cabeça fora da janela e gritei, “Hey! Olha a hora!”

O menino empurrando a máquina não me ouviu. Eu bati a janela. Abafou o som fraccionadamente.

Eu encarei o cara. Ele não viu. Os primeiros raios do amanhecer estavam atrás dele, iluminando milhares de manchas de pólen e mosquitos zumbindo em torno de sua cabeça como um halo enquanto empurrava a cortadeira pelo quintal de Carmina. O bico de sua bota estava manchado de verde da grama, e ele usava um chapéu de caubói queimado tampando seus olhos. Ele usava fones de ouvido, e eu vi seus lábios se moverem cantando a letra da música.

Eu coloquei uma camisola fui para o corredor. “Carmina?” Eu andei firmemente até o fim do corredor e bati na porta do quarto dela.

A porta estalou. “O que é isso? Qual o problema?”

Estava tão escuro em seu quarto, que eu não consegui ver seu rosto. Mas eu ouvi a ansiedade em sua voz e pude ouvi-la procurando algo, roupas provavelmente, no chão.

“Alguém está aparando o seu quintal.”

Ela vestiu as roupas e endireitou-se. “E?”

“Ainda são 5 da manhã”

“Você me acordou para dizer as horas?”

“Eu não consigo dormir. É muito alto.”

As molas de seu colchão fizeram barulho assim que ela voltou para a cama. Ela deixou escapar um suspiro de irritação. “Chet Falconer. Mora mais pra frente. Quer terminar o trabalho antes que fique muito quete – bom para ele. Você não tem um desses aparelhos de música? Coloque uma música e você não vai ouvir nada.”

“Não foi permitido trazer meu iPhone;”

“Um iPhone não é a única coisa por aqui que toca música. Olhe a gaveta de cima da sua cômoda. Agore, volta para sua cama, Stella.”

Ela saiu de sua cama e fechou a porta na minha cara.

Virei as costas, e andei rigidamente até o meu quarto. Eu lancei um olhar malvado pela janela, assistindo Chet Falconer terminando outra fileira e empurrando a cortadeira por aí. Desse ângulo, eu não conseguia ver seu rosto, mas uma pequena mancha de suor ensopou a frente de sua camiseta branca, revelando uma barriga sarada. Seus braços eram bronzeados e musculosos, e ele batia seu polegar contra o guidão da cortadeira mantendo o ritmo de qualquer que seja a música que ele estava escutando. Ele obviamente começou a manhã com uma garrafa inteira de café. Como eu não podia dizer o mesmo, eu apenas franzi o cenho para ele. Eu estava tentada a abrir a janela e gritar algo obsceno, mas entre os fones e a cortadeira, ele nunca iria me escutar.

Eu me esparramei de bruços na cama e apertei o travesseiro fortemente sobre minha cabeça. Sem sorte. O cortador de grama continuava a ranger através do vidro da janela como um inseto raivoso. Aceitando a dica de Carmina, eu abri a gaveta de cima da cômoda e quase me sufoquei com minha risada.

Um Sony Walkman, completo com rádio AM/FM e tocador de cassete. Eu soprei a poeira da superfície, pensando que eu não havia viajado para o Nebraska – eu havia viajado para o século passado.

Escolhendo entre as fitas cassetes desarrumadas no fundo da gaveta, eu li as etiquetas escritas à mão.  Poison, Whitesnake, Van Halen, Metallica.

Carmina tinha um filho? Esse era seu quarto antes dele fugir – sabiamente – de Thunder Basin?

Eu escolhi Van Halen, por que era a única fita que não precisava ser rebobinada. Apertando play, eu me aconcheguei nas cobertas e aumentei o volume até não poder mais ouvir o ranger da cortadeira de Chet Falconer.

Eu desci para a cozinha às 10 horas. Eu segui o cheiro de bacon e ovos para guiar meu caminho. Eu não consegui me lembrar da última vez que havia comido bacon e ovos. Na Disneylândia, provavelmente, quando eu tinha sete anos, com panquecas no formato do Mickey Mouse. A ideia de comer uma refeição na mesa com pratos de verdade, ainda mais com alguém cozinhando pra mim, era insondável. Meu café da manhã usual era um latte pequeno e farinha de aveia integral do Starbucks. Eu comia em meu carro, no caminho para a escola.

Assim que entrei na cozinha, eu encontrei a mesa limpa e sem comida. Através da porta de tela indo para o quintal, eu pude ver Carmina agachada na horta de vegetais, puxando as ervas daninhas.

Julgando pela grande pilha atrás dela, ela estava ali há algum tempo.

“Eu acho que perdi o café-da-manhã,” eu disse, atravessando o quintal até ela.

“Acho que sim,” ela disse sem olhar para cima.

“Você guardou algo para mim?”

“Da última vez que provei, bacon e ovos não eram bons gelados.”

“Tudo bem, eu entendo. Você dorme, você perde.” Disse com um dar de ombros. Se ela pensava que conseguiria algo ao deixar-me passando fome, ela era bem inexperiente como mãe. Poderia me contentar muito bem com uma xícara de café. Não seria a primeira vez. “Que horas é o almoço?”

“Depois que a levar por aí para que entregue solicitações de emprego para o verão.”

“Eu não quero um emprego.”

“Terminou a escola, mesmo que a maioria dos trabalhos bons já foram ocupados, encontraremos algo,” continuou.

“Não quero um emprego,” repeti mais firme. Eu nunca tive um emprego. Minha família não era rica – nós não vivíamos em uma grande propriedade na Rua Principal, e eu não me vestia como Jackie Kennedy – mas nós não vivíamos mendigando também. Minha mãe era uma jovem de classe alta em Knoxville, e enquanto ela queimava o que podemos chamar de seu dote, era importante para ela manter as aparências. Isso tudo para não me ver trabalhando. Meu pai era o diretor de uma empresa na capital, e depois dele divorciar-se da minha mãe há mais de dois anos atrás, ele a deixou com dinheiro suficiente para que ela não precisasse trabalhar. Até uns dias atrás, eu vivia com minha mãe nos subúrbios, em uma linda cabana de campo cinzento no fim de uma longa rua sem saída, ladeada de árvores. Com essas circunstâncias, eu nunca tive a motivação ou o desejo de suar para conseguir um salário mínimo.

E eu definitivamente não era acostumada a receber ordens. Minha mãe era mais uma companheira de quarto do que mãe; nós éramos como barcos que passam a noite. Eu não tive alguém para mandar em mim por anos.

Carmina recostou-se em suas coxas e olhou para mim diretamente. “O que você vai fazer no verão, criança? Sentar por aí e sentir pena de você? Não sob o meu teto. É hora de uma garota como você aprender a olhar além de você mesma.”

Eu passei minha língua por meus dentes, checando minhas palavras. Se Carmina quer uma briga, eu posso dar a ela. Mas se ela, um adulto, estava me atraindo para uma briga, logicamente ela tinha uma lista delas. Talvez ela pensasse que se eu apenas gritar e esbravejar e extrair toda a minha dor, eu de repente tornaria-me uma nova pessoa. Uma que queria estar em Thunder Basin no verão. Uma que queria tornar a vida de Carmina mais fácil.

“Muito bem,” eu disse, forçando-me a falar tranquilamente. “Que tipo de trabalho acha que eu conseguiria?”

Carmina franziu o cenho, demonstrando que supus corretamente. Ela esperava que eu brigasse, que deixaria sair minha raiva. Ela esperou que eu fizesse. Tenho notícias para ela: a policial perdeu suas vantagens, uma vez aposentada. Ela não podia me ler. E eu não podia pensar em uma vitória maior.

“Bom,” disse pensativa, por fim, “há um serviço de restaurante. Escutei que o Restaurante Sundown está contratando garçonetes. Ou poderia trabalhar nos campos de milho; sempre estão a procura de ajuda. Mas é um trabalho duro e caloroso, com muitas horas à frente, e o pagamento não é nada para sorrir.”

“Está bem,” eu disse, fria e serena. “Vou tomar um banho e me arrumar.”

No momento que subi as escadas até meu quarto, havia mudado de opinião sobre o trabalho. Provavelmente o odiaria, mas não poderia ser pior do que passar o dia em casa com Carmina. E desde que eu dei a sensação que ela esperava: uma adolescente malcriada com problemas de comportamento, sem talento para trabalho manual; eu estava decidida a mostrar que ela estava equivocada. O quão difícil poderia ser um trabalho de verão? Virar hambúrgueres era nojento, mas dificilmente algo complexo. E se me derem um trabalho em uma cafeteria, teria ar condicionado. Certamente o Nebraska havia abraçado essa comodidade moderna.

Havia um toque irônico, em que eu, a famosa princesa do alto castelo na colina, fui obrigada a usar o disfarce que menos queria, de uma pobre empregada trabalhadora. Perguntei-me se o Oficial Price e o resto de seus amigos do Departamento de Justiça haviam planejado isso, dar-me uma colher cheia do bolo da humildade. Talvez eles estivessem se divertindo. Vamos lá, caras. Riam o quanto quiser. Quando isso acabar, você continuarão usando ternos baratos e lidando com a escória do mundo. Enquanto isso, o governo terá que descongelar as contas da minha família, terei meu dinheiro de volta, e esse verão humilhante será nada mais do que uma memória distante.

Meia hora depois eu saí do banheiro com o cabelo molhado e o cheiro barato de marfim em minha pele. Eu usava shorts e uma camisa branca básica. Eu pulei a parte de passar maquiagem, exceto por um pouquinho de hidratante com cor e um pouco de gloss labial. Apesar de estar bem úmido lá fora, eu dificilmente precisaria disso.

Carmina havia movido sua pilha de ervas daninhas para o jardim da frente. Ela estava ajoelhada sobre o canteiro de flores no início da estrada, jogando as ervas em um balde. Quando a porta da varanda bateu atrás de mim, ela olhou por baixo de seu chapéu com abas largas.

“Que tipo de emprego você espera conseguir vestida desse jeito?” ela perguntou, apoiando em seus tornozelos para me examinar.

“Não me importo.”

“Você não se importa, mas vai ficar entre entre as pessoas que ninguém quer contratar.”

“Alguém tem que contratá-las.”

“Você tem muita atitude, não é? Entre na caminhonete, então.”

Uma velha caminhonete Ford com uma tintura azul descascada estava estacionada na estrada, e depois de abrir a pesada porta do carona, eu entrei. O interior das duas portas estavam enferrujados e o forro dos assentos estavam rasgados e mostravam o estofamento de espuma. O porta-luvas estava aberto. Eu tentei fechar, mas o mecanismo deveria estar quebrado, por que a porta caiu aberta do mesmo jeito que eu encontrei. Eu rolei meus olhos e torci para que a próxima surpresa não seja um rato passando pelo meu pé.

“Eu realmente espero que você me empreste esse carro velho,” eu disse cinicamente quando Carmina sentou atrás do volante.

“Compre sua própria caminhonete. É para isso que serve uma folha de pagamentos”. Ela apertou o acelerador, girou a ignição, e o motor ganhou vida. “Comprei essa caminhonete trabalhando em meu primeiro emprego. Foi bom ser uma mulher independente. Não sonharia em roubá-la essa satisfação.”

“De que ano é a caminhonete?”

“79.”

Eu assobiei. “Você é mais velha do que eu imaginei.”

“Isso é o que você pensa?” Ela riu alto e saudavelmente. “Garota, ninguém nunca te disse que você é da idade que sente ser? Julgando por seu rosto longo e azedo, eu não sou a única que tem algo para se preocupar.”

Avançando pela estrada de chão que levava à rua pavimentada que eventualmente nos levaria para a cidade, passamos por uma casa de tijolos vermelhos de dois andares sombreada por um bosque de algodoeiros. Haviam potes de plantas pendurados na varanda, e a arquitetura tinha o charme, e o potencial, de uma pousada country.

Naquele momento, Chet Falconer passou ao lado da casa carregando uma caixa de ferramentas enferrujada em uma mão e uma escada na outra. Eu ainda não consegui ver seu rosto, mas eu reconheci o chapéu baixo de caubói e a camisa branca.

“Quantos anos ele tem?” Eu perguntei.

“Dezenove.” Depois de um tempo, os olhos de Carmina se encontraram com os meus, como se ela de repente houvesse percebido algo importante. “Oh, não, não. Não tenha nenhuma ideia. Aquele garoto tem muitos problemas.”

“Que tipo de problemas?”

“Só existe um tipo de problema – o tipo que você fica longe.” Carmina disse isso de um jeito que me fez entender que ela não ia dizer mais nada, não importa o quanto eu pressionasse. Tudo bem por mim. Eu posso ser paciente. O que ela provavelmente não percebeu era que não me contando nada, ela me incitou a ir fundo no mistério dele.

Eu vi os braços de Chet flexionarem quando ele deixou a caixa de ferramentas na varanda e encostou a escada na lateral da casa. Uma coisa era certa, ele tinha um corpo legal. Talvez garotos da roça sabiam como trabalhar.

“Ele faz muito trabalho em casa para alguém com dezenove anos,” eu disse. “Seus pais devem escravizá-lo.”

Carmina lançou-me um olhar refutado. “Seus pais estão mortos. Ele é o homem da casa. Se ele não cuidar do lugar, ninguém vai.”

Eu não acreditei que ele tinha uma casa inteira só pra ele. Em três meses, eu poderei ser como ele. Morando sozinha, na cidade que eu escolher. Eu não poderia voltar para a Filadélfia, mas haviam outros lugares que eu gostava. Boston era a primeira da lista. “Para qual faculdade ele vai no outono?”

“Ele não vai.”

“Ele vai ficar aqui em Thunder Basin e cortar a grama pelo resto da vida?”

Os olhos dela saíram da estrada e encontraram os meus. Eu vi o lampejo de alguma coisa neles. Raiva, tristeza. Um brilho de dor. “Problemas com isso?” ela disse friamente.

“Sim. É uma coisa inútil a se fazer. Ele deveria ir o mais longe possível desse lugar e ter uma vida real, um emprego real.”

Carmina não respondeu, apenas manteve seu olhar à frente, mas eu sabia que ela entendeu meu insulto perfeitamente. Ser uma policial em uma cidade sonolenta como Thunder Basin não era um real modo de vida. Mas o fato dela estar sentada ali e levar a humilhação com nada mais do que uma levantada de queixo me fez de alguma maneira sentir que ela ganhou esse round.

Nós gastamos as próximas duas horas entrando e saindo de lanchonetes de fast-foods e restaurantes sujos em todos os pontos dos sete quarteirões que compunham o centro de Thunder Basin. A maioria dos prédios eram de blocos vermelhos ou de blocos cinzas. Algumas largas torres d’água e alguns silos de grãos compunham o resto da paisagem da cidade. Pregado em uma das faxadas de loja, havia um cartaz escrito à mão que dizia CORTES DE CABELO, SETE E CINQUENTA. Cortar só as pontas do cabelo onde geralmente corto é três vezes isso, eu pensei secamente.

Eu preenchi uma ficha em cada restaurante, deixando com o gerente. Eu dei meu nome falso e número de identidade falso, que combinavam com os detalhes do meu falso passaporte. Carmina me ajudou a preencher a parte do endereço e número de telefone onde eu poderia ser contratada. Eu chequei as vagas para garçonete, lavadoras de pratos, e hostess – eu não me importava com qual cargo eles iam me dar. Eu ia odiar todos eles. Eu ia gastar os próximos três meses fazendo o que precisava, e depois eu estaria livre disso.

Na viagem de volta, Carmina disse, “Alguma coisa te agradou?”

Eu olhei através da janela para a bruma de verde passando em um borrão. Não haviam subidas e descidas na estrada, não havia colinas para serem escaladas ou vales para visitar. O caminho era um trajeto reto, com filas ordenadas de plantas levantando um muro de cada lado e uma cúpula azul presa em cima. Sentia-me como uma formiga sob o vidro. Quente, sem esperança, condenada. “Não.”

“Você deveria ter usado uma calça social e uma blusa.”

“Ninguém usa calça social.”

“Elas dão uma impressão melhor do que calça jeans cortada que mostram metade de suas pernas.”

Movi meus dedos sedutoramente sobre minha coxa. “Mais do que a metade, Carmina. Muita mais do que a metade. Além disso, não estou tentando impressionar ninguém.”

Ela virou-se para mim, movendo os olhos teatralmente. “Não me diga.”

CAPÍTULO 4

Depois do jantar, Carmina foi ao estudo bíblico. Fui deixada em casa, presa. Eu não tinha um carro. Eu só podia ir até onde meus dois pés podiam. Percebi que seu eu tiver conseguido um emprego, Carmina teria que providenciar um transporte para mim. Eu não podia andar 8 quilômetros para a cidade e voltar. Nesse ponto, eu ficaria feliz com uma bicicleta. Mais e mais, eu ficava convencida de que estar empregada não era um modo tão ruim de passar o verão.

Eu vi a caminhonete de Carmina saltar na estrada de chão indo para longe da casa de fazenda. Fechando a cortina da janela do meu quarto, desci as escadas para assistir TV. Ao menos, estaria mais fresco no primeiro andar. Depois da TV, eu poderia sentar no balanço da varanda, chupar um picolé, e escutar aos coiotes. Por que definitivamente não tinha mais nada para fazer.

Eu caí do lance de escadas e, assim, encontrava-me caindo no passado.

As cenas retrospectivas eram mais fortes do que as recordações. Não perdi os sentidos – eu estava consciente – mas as cenas eclipsaram minha visão real. Pareciam muito reais. E sempre começavam em um mesmo lugar.

Era pouco depois de meia noite. Havia quebrado o toque de recolher de novo. Não querendo correr o risco de acordar minha mãe (quem eu queria enganar? Provavelmente ela estava desmaiada), parei meu carro na frente de uma casa antes da nossa. Estranhamente, um Honda Civic branco já estava estacionado perto da calçada. Os Foggs nunca deixavam seus carros na rua. E nem tinham um Honda Civic.

Ignorando a estranheza, corri pela lateral da casa, procurando em minha mochila pelas chaves.

Enquanto me arrastava pelas escadas de trás, pude sentir o cheiro de nossos jardins de arbustos e árvores recentemente floridas. Embora eu me esforçasse para nunca estar em casa, e para evitar minha mãe quando estava, eu amava nossa casa, especialmente o pátio. Era meu escape favorito. Descansando nos jardins, escondida nas sombras das árvores antigas, sonhava acordada com as músicas de Ben Howard, The Oh Hellos e Boy.

Entrei. A luz da cozinha não se acendeu. Tampouco o candelabro da sala de jantar. Não percebi que algo poderia estar mal. Achei que minha mãe havia se esquecido de trocar as lâmpadas. Na escuridão, fui tateando o caminho até as escadas. Meus passos eram ligeiros e rápidos. Se tivesse sorte, poderia evitar minha mãe até a manhã.

Ao passar na frente das portas de vidro chanfrado da biblioteca, vi ela caída em uma das cadeiras de couro. A luz da lua se infiltrava através das persianas, lançando uma luz branca como cera. Seus remédios estavam espalhados na mesa ao lado, uma mistura colorida de comprimidos. Eu comecei a me sentir enjoada…

E então…

E então meus olhos foram atraídos pelas sombras atrás dela. Eu olhei para o corpo amassado do homem em um deslumbramento. Os membros estavam espalhados em ângulos esquisitos e permanentes. Eu fui para mais perto. Eu não queria, mas eu não conseguia parar. Eu andei até parar ao lado dele, seus olhos castanhos vagos olhando para mim.

Um buraco foi feito em sua testa.

Eu saí do flashback ofegante. Eu tateei pelo interruptor no fim da escada de Carmina, aliviada quando a luz imediatamente expulsou a escuridão.

O homem morto estava em um caixão, sete palmos abaixo da terra. E Danny Balando estava na cadeira. Ele não podia me machucar. Meus passos até Thunder Basin foram apagados; ele nunca ia achar Stella Gordon.

Com um calafrio, eu subi as escadas e peguei uma das cartas de Reed na minha mala. Eu precisava dele aqui comigo, afirmando que tudo ia ficar bem, mas essa noite eu teria que me conformar com suas palavras. Era enraivecedor o fato do Departamento de Justiça ter nos separado. Eles estavam fazendo ser possível eu estar com minha mãe de novo, então por que não Reed? Se eu tivesse escolha, eu escolheria viver com ele. Na verdade, nunca houve uma escolha.

Estella,

Eu briguei com meu pai essa noite. Foi ruim. Agora que tenho 17 anos, ele está me forçando a fazer o alistamento. Eu tenho dito há anos que não vou seguir os passos dele, mas ele se recusa a escutar. Eu vim à sua casa para passar a noite, mas você não está aqui e não atende o telefone. Ligue-me quando ler isso. Espero que não te incomode que eu venha aqui toda hora. Eu odeio ficar em casa. Quando estou lá, meu pai não me deixa em paz. Depois de nossa briga, ele me disse que se eu saísse, ele não ia me deixar voltar. Bem, eu saí. Não sei o que vai acontecer agora. Eu costumava desejar que minha mãe o enfrentasse, mas ela nunca vai. Ela sempre recua, se escondendo na cama, usando sua fibromialgia como uma desculpa para nunca se envolver. Se ela tem isso para lidar, ela nunca tem que lidar com a gente. Eu queria ter dinheiro o suficiente para ter minha própria casa. Algum dia terei. E vou levar você comigo.

Reed.

Machucou relembrar nossos planos. Nós íamos fugir e começar uma nova vida juntos. Agora eu não sei se vou vê-lo de novo. Ele poderia estar em Kentucky ou Kansas. Eu nunca saberia. A menos que eu fosse procurá-lo.

E eu poderia ir procurar, por que sei com encontrá-lo.

Oficial Price deixou bem claro que eu nunca, sob nenhuma circunstância, deveria tentar contatar alguém de minha velha vida. Danny Balando e os homens perigosos que ele contratou nunca desistiriam de procurar por mim. O único modo deles me encontrarem, era se eu quebrasse as regras.

Eu sabia que contatar Reed era quebrar as regras, mas ele não estava na Filadélfia mais. Ele estava no Programa de Proteção à Testemunhas. Seus laços com a cidade foram apagados, e se os marechais do exército tiverem feito metade do bom trabalho que fizeram comigo, eu não ia dar pistas para os homens de Danny Balando se contatar Reed.

Eu ainda não vi um computador na casa da Carmina, tampouco poderia usá-lo. Se eu ir a fundo nisso, não posso deixar uma trilha. Mais cedo, na cidade, eu vi cartazes da biblioteca pública. Era muito longe para andar até lá à noite, mas eu aposto que Carmina tem uma bicicleta guardada em algum lugar naquele celeiro atrás de sua casa. Eu não sabia quanto tempo o estudo bíblico durava, mas era seguro afirmar que eu tinha pelo menos uma hora.

Espantando mosquitos enquanto atravessava o quintal dos fundos, eu empurrei as portas do celeiro e olhei ao redor do espaço cavernoso. O ar cheirava a mofo e feno. E gasolina. Eu estava bem certa de que o cheiro de gasolina vinha do grande automóvel escondido embaixo de uma lona no fundo do celeiro. Eu levantei a lona e vi que Carmina estava escondendo um velho Ford Mustang. A cor era um feio tom de marrom, e tinha um punhado de zangões mortos em cima, mas eu não estava exigente. Quais eram as chances de eu conseguir isso no início?

Carmina deixou as chaves no assento do motorista, o que me fez encontrar muito mais fácil.

Depois de algumas tentativas, o motor do Mustang ganhou vida e o cheiro de óleo queimado encheu o ar. Carmina havia me proibido de pegar sua caminhonete emprestada. Mas ela nunca me disse que eu não podia dirigir o Mustang.

Eu sabia o caminho para a cidade – era um caminho reto depois de curvar para a rua pavimentada no fim da estrada de chão de Carmina. Na cidade, eu achei a biblioteca facilmente. Havia apenas três outros carros no estacionamento, então eu pude escolher minha vaga. Pareceu estranho não precisar rodar o estacionamento e dirigir pelas ruas ao redor várias vezes, procurando por uma vaga. Em casa, eu raramente dirigia para a cidade, por causa disso. Era bem melhor pegar um trem.

No balcão, eu pedi por um cartão da biblioteca. Depois de checar a foto do meu passaporte e endereço, a bibliotecária me deu um cartão temporário. Meu cartão real ia chegar pelo correio dentro de duas semanas. Carmina não iria suspeitar de nada – eu diria a ela que gosto de ler, o que não é mentira.

Achei um computador vazio e conectado na Internet. Logo depois de eu e Reed começarmos a namorar, ele fez um e-mail privado que nós dois tínhamos acesso. Ao invés de mandar e-mails um para o outro, nós escrevíamos rascunhos para a outra pessoa achar. Cada rascunho era deletado depois de lido. Reed tinha lido um artigo sobre espiões que utilizavam essa técnica, e mesmo que eu pensasse que era um pouco exagerado, não discuti. Seu pai era militar. Sua educação lhe dá forma. Utilizávamos esse e-mail regularmente no início… e logo nos esquecemos totalmente dele.

Com o pulsar de algumas teclas rapidamente, iniciei sessão no e-mail privado: Phillies60@gmail.com. A caixa de entrada estava vazia.

Tentei não me sentir desesperançada. Esperava encontrar uma nova mensagem, especialmente por que ele havia me lembrado da conta secreta ontem de manhã antes de deixar o motel. Querendo deixá-lo informado de que eu estava bem, escrevi um breve e-mail.

Cheguei sã e salva. Bom, não sei sobre a última parte. Deveria ver esse lugar. Quase desejo estar morta. Sinto sua falta. Diga-me que está bem.

Li as palavras cuidadosamente, verificando duas vezes de que eram vagas os suficientes para não trazer ameaças para mim, em caso de alguém as interceptar, em seguida escrevi um pequeno P.S.

P.S.: Colocaram minha mãe em reabilitação. Fazendo apostas sobre como isso será.

Salvei e saí da conta.

Deixei escapar um pouco de ar. Hora de ser paciente.

Uma virtude que eu nunca havia gostado, muito menos possuído.

 

CAPÍTULO 5

Assim que saí da biblioteca, o céu era um veludo preto com diamantes. Na Filadélfia, noite significava uma coisa: ficar preocupada com minha mãe, com quem ela estava, o que ela estava fazendo, e se eu teria que sair e procurar por ela. Eu fiquei parada por um momento, testando cautelosamente essa nova escuridão. Era tão quieto, tão descomplicado, tão amável, que parecia ser ridículo ter medo disso. O ar quente formigava em minha pele. Tinha um perfume fresco e verde. A escuridão oferecia alívio do sol quente que ardia meus olhos o dia todo. Pintava a paisagem de sombras. Eu quase pude esquecer os campos de milho e o céu azul – eu pude quase esquecer que estava aqui.

O estacionamento tinha apenas um carro – o Mustang de Carmina. Eu não sabia para onde os adolescentes de Thunder Basin iam após o pôr-do-sol, mas para a biblioteca obviamente não era. Eu poderia ter atravessado os sete quarteirões da rua principal procurando sinais de vida noturna, mas é provável que Carmina esteja quase voltando pra casa de seu estudo bíblico. Ela não pode descobrir o que fiz essa noite.

Liguei o motor do Mustang. Fez um ruído, como se bufasse, mas não quis ligar por completo. Apertei o acelerador e tentei de novo. Mais grunhidos e barulhos, mas o motor não ligava. Abaixei as janelas e o carro emitiu espessas nuvens de fumaça malcheirosa. Não era um bom sinal.

Saí e contornei o carro, mas nada parecia fora do normal. Essa coisa estúpida funcionou bem minutos atrás, qual era o problema agora?

“Precisa de ajuda?” Virei-me. Através da escuridão, notei a forma de um homem alto e delgado que vestia jeans, botas pontiagudas e uma camiseta preta apertada. Seu cabelo escuro se enrolava em torno de suas orelhas. Levantou um pouco seu chapéu de caubói, e me lançou um sorriso.

“Se importa se eu der uma olhada?” Continuou, apontando para o carro.

Apertei as chaves do carro em minha mão. Não tinha razão para confiar nele. Na verdade, eu deveria ter estacionado sob um poste. Não havia ninguém por perto para ver se ele decidir me arrastar para um beco e cortar minha garganta.

“Não. Tenho tudo sob controle,” eu disse, escolhendo parecer educadamente desinteressada. “Normalmente demora a ligar.”

Bateu os dedos carinhosamente contra a lateral do Mustang. “Carros antigos. Você ama ou odeia.”

“Tem razão nisso.” Voltei para trás do volante, dando a entender que não estava com vontade de conversar. “Obrigada por se interessar, vizinho,” eu adicionei, por que pareceu algo a se dizer em cidades pequenas. É melhor eu agir como uma pessoa local, então ele pensaria que alguém ia sentir minha falta caso me arrastasse para o beco.

Eu tentei ligar de novo. Mais ruídos e fumaça, mas sem sucesso.

“Tem certeza que não quer que eu tente?” Ele perguntou, seu tom continuava amigável. E talvez um pouco divertido.

“Só porque sou uma garota não significa que eu não consiga ligar meu próprio carro,” eu disse, suficientemente calma, mas minhas palavras estavam sublinhadas com irritação. Por favor, vá embora, eu silenciosamente pedi a ele.

“Seu carro? Hm. Isso é interessante.”

“O que? Porque sou uma garota, não posso gostar de carros másculos?” Eu desafiei.

“Não foi o que eu disse.”

Eu girei a chave mais forte. O mesmo ronco baixo do motor. Estava perto de ligar, mas eu não conseguia ligá-lo por completo. Carmina ia me matar. Eu não sabia quanto tempo eu teria até ela chegar, mas não era muito.

Eu soltei um suspiro conformado e apertei a ponte do meu nariz. “Se eu te der a chave, você vai cortar minha garganta com ela e deixar meu corpo no beco?”

“Não seria inteligente te contar se eu fosse fazer isso.”

Ao invés de rir, eu olhei fixamente para ele.

Ele sorriu, claramente satisfeito com sua piada. “Você não é daqui, né?”

“O que faz você dizer isso?” Eu me perguntei se ele ia usar o cliché secular de como todo mundo se conhece em uma cidade pequena.

Ao invés, ele disse, “Ano passado eu vendi esse carro para a minha vizinha.”

De repente tive um sentimento ruim.

“Carmina Songster,” ele lembrou. “Você vai me dizer por que está dirigindo o carro dela, ou prefere se explicar para a polícia?”

Merda.

Eu saí do Mustang, ficando em pé na frente dele. Ele era muito mais alto do que eu, e olhando de perto assim, eu pude ver que seus olhos eram de um azul brilhante. Algo entre turquesa e vidro do mar. “Não é o que parece.”

“Isso é uma alívio, porque parece com roubo de carro. O que eu estou tentando descobrir é por que você parou na biblioteca. Você está a poucos quarteirões da interestadual. Não deveria estar fugindo da cidade?”

“Eu moro com a Carmina agora.”

Ele bufou, instantaneamente rejeitando a ideia. “Carmina não recebeu visitantes nos dezenove anos que estive nessa vizinhança, e eu já conheço toda a sua família. Então, confesse. Quem é você, realmente?”

“Ela é minha… mãe adotiva,” eu disse categoricamente. Foi a primeira vez que eu tive que usar minha história falsa. Se ele pressionar por mais informações, eu tinha que contar para ele que tenho vivido em lares adotivos desde que minha mãe morreu, mas eu rezei para ele não ir mais fundo. Eu não queria falar sobre Stella. Eu estava cansada dela já. Eu queria ir pra casa. Minha real casa. E enquanto eu estiver lá, eu nunca mais vou querer ver essa terra de sertões de novo.

Ele balançou sua cabeça desconfiado. “Carmina? Uma mãe adotiva? Eu não acredito nisso. Quantos anos você tem?”

“Faço dezoito em Agosto.” Três pequenos meses até eu conseguir minha independência. Que talvez durem uma eternidade.

“Por que Carmina iria adotar uma menina de dezessete anos?” Ele ficou perplexo.

“Talvez ela seja sozinha.”

Ele bufou de novo. “Aquele lobo solitário? Nah. Algo não está se encaixando. Quando você chegou na cidade?”

“Ontem a noite.”

“Qual seu nome?”

“Stella Gordon.” Eu senti vidro em minha garganta quando disse isso. Eu odiei o nome. Era como falar sobre outra pessoa, o que eu acho que era.

“Por quanto tempo você esteve em lares adotivos?” ele seguiu, evidentemente tentando entender minha história.

“Desde que minha mãe morreu.”

“Sinto muito ouvir isso.”

Eu encolhi os ombos. Não senti nada. Minha mãe estava viva, mas ela estava bem morta para mim.

“De onde você veio?”

“Tennessee,” eu menti. “Knoxville, Tennessee. Já foi lá?”

“Não posso dizer que fui.”

Nem eu. Acho que isso significa que posso dizer qualquer coisa sobre Knoxville e nenhum de nós vai saber algo sobre isso.

E então ele disse, “Mas eu esperaria um sotaque diferente. O seu parece… da Costa Leste.

“Oh,” eu disse devagar, dando-me um segundo extra para pensar em uma desculpa. “É porque meu pai cresceu na região Médio Atlântico. Eu peguei seu sotaque mais do que o da minha mãe.”

Para o meu alívio, ele pareceu aceitar a ideia e estendeu sua mão. “Bem-vinda a Thunder Basin, Stella. Meu nome é Chet Falconer.”

Eu franzi o cenho. “O mesmo Chet Falconer que cortou a grama de Carmina?”

Um sorriso torceu seus lábios. “Ela falou de mim?”

“Você me acordou 5 horas da minhã hoje! Vê essas olheiras? Você pode pegar os créditos!”

“Seus olhos parecem perfeitamente bem para mim.”

Antes de eu me perguntar se ele me cantou, ele seguiu, “É o seguinte. Vou fazer um acordo. Vou fazer esse velho navio de guerra correr, mas eu preciso de algo em retorno. Tem um restaurante depois da esquina com duas pessoas em uma mesa no fundo. Um deles está tentando parecer um punk usando uma jaqueta de motociclista de couro,” ele adicionou sombriamente. “Eu quero que você pegue uma mesa perto o suficiente para escutar casualmente, peça um cheeseburger para disfarçar, e então venha e me conte sobre o que eles falaram.”

“Entendi. Você quer que eu espie sua namorada? Se você pensa que ela está te traindo, ela está.”

Ele me ignorou. “Vou deixar o carro funcionando até a hora que você voltar.”

“Sem acordo. Estou com pressa. Eu preciso disso funcionando agora.”

“Bem, isso vai levar um tempo.”

Eu deixei algum ar escapar. “Tudo bem. Mas você vai pagar pelo cheeseburger.”

Deu um suspiro longo de paciência, e então deixou uma nota de dez dólares na palma de minha mão. “Coma devagar. Quero saber tudo o que estão dizendo.”

“Incluindo as coisas que farão seu coração partir? As partes que falem que seu hálito cheira a comida e como seu beijo é molhado demais?”

Ele tirou o chapéu de caubói e bateu na minha bunda. De verdade, bateu na minha bunda. “Vá andando antes que perda tudo. Não tenho mau hálito. Ou faço essa outra coisa.”

“É melhor colocar esse carro pra funcionar quando eu sair.” Adverti-o.

“É? Ou o que?”

“Ou terá que me comprar outro cheeseburger. E batatas fritas e uma vitamina.” Não sonhei de forma precipitada, mas se não voltasse antes de Carmina, provavelmente me colocaria de castigo para ensinar uma lição, e asseguraria que eu nunca mais colocasse as mãos no carro. E eu não podia deixar isso acontecer, por que precisava de uma forma de chegar à biblioteca. Olharia o e-mail quantas vezes pudesse. Reed me enviaria uma mensagem breve e poderíamos começar a formular um plano para voltar a ficar juntos depois de meu aniversário. Ele teria dezenove anos e legalmente poderia viver por sua conta; só teríamos que esperar que eu fizesse dezoito.

“Mantenha esse pensamento até você provar o primeiro cheeseburger.” Advertiu Chet com um brilho suspeito em seus olhos.

“O que supõe que significa isso?”

“Digamos que a vigilância sanitária não é o que chamaríamos de rigorosa. De fato, o júri continua deliberando se temos uma vigilância sanitária ou não.”

Eu agitei sua nota de dez dólares amassada no ar. “Então eu vou esquecer a comida, e considere isso uma dica para minhas incríveis habilidades como espiã.”

Girando em meus calcanhares, eu caminhei de forma descontraída até o fim do quarteirão e olhei para os dois lados da rua. O restaurante Sundown estava no andar inferior do próximo prédio. Eu o reconheci da caçada matinal por emprego. As luzes exteriores estavam ligadas agora, mariposas voando loucamente ao redor das lâmpadas. Um toldo listrado de azul e branco estendia-se sobre a porta.

Eu parei na entrada e fiz um scan rápido no lugar. Os negócios estavam fracos essa noite. Apenas duas mesas em uso. Uma mãe com dois meninos pequenos estava sentada na cabine próxima à máquina de música. No fundo do restaurante, dois caras sentados curvados sobre a mesa, mergulhados na conversa.

Acho que eu estava errada sobre a namorada do Chet. Ele me mandou espionar dois caras. O que estava usando a jaqueta de couro parecia ser da minha idade, talvez um ano mais novo. Seu cabelo castanho caía sobre seus olhos, que pareciam mover-se nervosamente. Seu companheiro era muitos anos mais velho, com uma barriga de cerveja que era apertada por uma camisa do show do Journey. Ele ostentava grossas costeletas vermelhas e uma bandana preta, e ele parecia um híbrido de motoqueiro do Hell’s Angels e trabalhador rural. Eu imediatamente soube que não gostava ou confiava nele.

“Está sozinha essa noite?” a garçonete me perguntou, mexendo em sua pilha de cardápios.

“Você se importa que eu sente na cabine do canto, no fundo?” Eu dei um sorriso. “Meu assento da sorte.”

“Claro que pode, querida.”

Sentei-me na mesa. Estava suficientemente perto para escutar os caras na mesa ao lado, mas eles pararam de falar quando me sentei. Para encorajá-los a me esquecer no fundo, peguei o Walkman de Carmina no bolso, coloquei na mesa e coloquei os fones em meus ouvidos. Não se preocupem comigo, caras, estou em meu próprio mundo. Comecem a falar, e apressem-se. Tenho uma agenda apertada.

O mais jovem dos dois foi o primeiro a falar.

“Tenho alguns poucos dos meus pais.” Confessou inquietamente.

“Defina poucos.”

“Quatro.”

O motoqueiro coçou a barba em seu pescoço pensativamente. “Não é muito, mas deve ser suficiente.”

“Uma vez que eu consiga o dinheiro, quanto tempo levará para entrar no negócio?”

“Duas semanas. As mercadorias devem ser trazidas do Colorado.”

O cara mais jovem assentiu, pensando. “Está bem. Estou dentro.”

“Não tão rápido. Quando pode conseguir o efetivo?”

Justo nesse momento chegou a garçonete, parando entre a mesa deles e a minha. “Algo para beber?”

“Água.” Disse, tentando manter um ouvido na conversa dos caras.

“Alguma pergunta sobre o cardápio?”

Não havia aberto o cardápio. Já sabia o que queria. Não importava o quanto tentassem, não podiam arruinar umas batatas fritas. São feitas em óleo quente. Qualquer bactéria persistente morreria.

“Uma porção de batatas fritas grande, por favor.”

“Só isso?”

Eu afirmei, pensando que merecia ficar com o resto do dinheiro de Chet, e ela voltou para a cozinha.

Na mesa ao lado, o motoqueiro e o garoto estavam arrumando as coisas. O garoto estava em seu celular escrevendo uma mensagem, e o motoqueiro estava procurando dinheiro em sua carteira para pagar a conta. Eu sabia que Chet não ia gostar se eu voltasse com quase nada para contar, mas ele teria que aceitar. Ele me disse para ouvir. Eu não podia fazer nada se a conversa durou apenas algumas minutos.

“Vou te ligar quando tiver o dinheiro,” o garoto com a jaqueta de couro disse, levantando de sua cadeira e colocando o celular no bolso. Assim que começou a andar, ele deve ter percebido que eu estava olhando, por que seus olhos viraram em minha direção. Suas sobrancelhas juntaram-se suspeitosamente quando me viu, e eu imediatamente peguei meu cardápio, parecendo concentrada na leitura.

Ele saiu, seguido pelo motoqueiro, e eu decidi, ao invés de esperar por minhas batatas, ver se Chet havia cumprido sua parte em nosso acordo. Eu paguei pelas batatas no caixa e torci para que minha garçonete as aproveitasse.

No estacionamento da biblioteca, eu achei Chet curvado abaixo do capô do Mustang. Ele olhou por cima do ombro quando escutou que eu estava me aproximando. Mesmo no escuro, eu pude ver que suas mãos estavam sujas de graxa.

“E então?” ele perguntou expectante.

“Os pais do garoto vão dar-lhe quatro mil dólares, e ele vai entrar no negócio com o motoqueiro.”

Chet xingou baixo. “O que mais disseram?”

“Não muito. Foi uma conversa pequena. O garoto espera ter seu negócio funcionando brevemente.”

“Só por cima do meu cadáver.”

“Apenas me diga que você fez o carro funcionar.”

“Sim, era o carburador. Eu apoiei a entrada com um lápis para deixar o ar entrar. Veja se ele liga agora.”

Eu sentei atrás do volante e girei a ignição. Na hora, o motor voltou à vida. Eu estava tão aliviada, que poderia ter beijado Chet.

Ao invés, eu disse, “Qual é o caminho mais rápido até a casa da Carmina?”

Chet abaixou o capô e limpou suas mãos. “Ela não sabe que você pegou o carro, né?”

Eu mordi meu lábio. “Pode ser nosso pequeno segredo?”

“A nova garota da cidade já me deve um favor.” Ele sorriu, trazendo covinhas infantis às suas bochechas. “Pegue a estrada Rodeo para casa; você vai pular alguns sinais. Carmina nunca volta do estudo bíblico antes de 21:30. Desde que você não precise ficar parada na travessia do trem, você deve chegar 5 minutos antes dela.”

Cinco minutos não era a vantagem que eu esperava, mas teria de ser. Eu joguei um beijo pra ele e saí do estacionamento.

Na casa de fazenda, eu fiquei aliviada em ver que a caminhonete de Carmina não estava na garagem. Eu coloquei o Mustang no celeiro, do mesmo jeito que achei. Entrando na casa, eu liguei a luz. E rapidamente engoli minha língua.

Carmina estava sentada no sofá, batendo suas unhas no apoio de braço. Suas feições pareciam esculpidas em gelo. Sua boca estava comprimida, e isso fez meu coração apertar.

“Não vi sua caminhonete,” eu disse nervosamente.

“Mac Hester levou ela para casa depois do estudo bíblico – ele está consertando o transmissor. Deu-me uma carona até em casa. Chaves,” ela disse, estendendo sua mão.

Eu entreguei para ela.

“Desculpe-se.”

“Desculpa.”

“Não está bom o suficiente, Stella.”

Eu mudei meu peso de perna e exalei impacientemente. “Desculpe-me por pegar seu carro. Não vai acontecer de novo.”

“Olhe pra mim quando fala comigo.”

“Eu disse desculpa,” rebati. “O que mais você quer?”

“Você vai para a igreja comigo amanhã cedo.”

Eu a olhei firmemente. Pegar o carro dela foi errado, e eu me desculpei. Nós tínhamos resolvido a questão, e eu não ia deixá-la usar meu mau comportamento como uma desculpa para exercer autoridade sobre mim. Ela não era minha mãe. Ela era uma peça móvel na história falsa do Departamento de Justiça, e eu ia deixá-la saber que eu sabia disso.

“Eu não vou para a igreja.”

“Ah, você definitivamente vai para a igreja.”

“Você está me ameaçando?”

“Você está sob o meu teto, e eu espero certo comportamento de você. Roubar meu carro e só se sentir mal porque foi pega… essas coisas me desapontam muito…”

Roubar?” Eu contestei, minhas defesas automaticamente ativaram-se. “Eu não roubei o seu carro – eu peguei emprestado! Eu deixei a cidade? Eu bati o carro? Não! Está na mesma condição de quando peguei!”

“Não me interrompa, e não me conteste,” ela disse calmamente. “Não sou sua mãe, Stella. Eu sei disso melhor do que qualquer pessoa. Eu nunca tive a oportunidade de conhece-la, mas eu estaria fazendo um grande desserviço à ela se deixasse você roubar e mentir, e sair ilesa.”

Eu me livrei do choque a da humilhação, e transformei isso em raiva. “Não a traga para isso. Não a use para me fazer sentir culpada.”

“Começando hoje, você tem um toque de recolher às nove da noite.”

Eu fiz um som estranho. “O que? Você não pode me dar um toque de recolher. Eu nunca tive isso!” Ao tempo que tinha idade suficiente para sair à noite, minha mãe estava chapada demais para se importar com as horas que eu saía ou chegava. Eu cuidava de mim mesma, fazia minhas próprias regras. Quem era essa mulher que pensava que podia me dizer o que fazer?

“Toque de recolher mantido. E você vai comigo à igreja amanhã. Eu não posso fazer você gostar isso. Não posso fazer você ouvir. Mas não vou ficar no canto e deixar você correr livre esse verão. Não sobre meus cuidados. Talvez eu esteja errada. Talvez eu esteja fazendo as coisas piorarem. Mas eu prefiro tentar e falhar do que ficar sentada aqui, hesitante demais para agir. Pendurei um vestido no seu closet. Não me importa se você não gostar dele. Eu espero que você esteja limpa, vestida e dentro da caminhonete às 9:30. Fui clara?”

Eu corri para cima. Eu bati a porta do quarto, não me importando se aquilo era infantil. Ela não poderia me fazer ir pra igreja. Eu ia ligar para o Price. As coisas não estavam funcionando com Carmina. Talvez ele podia falar com os advogados do governo e fazê-los invalidar a decisão de me colocar em uma casa até meu aniversário de dezoito anos.

Eles acham que sabem o que é melhor para mim, mas eu estava melhor do meu jeito. Vivi do meu jeito por dois anos.

Aninhada na cama, me consolei com uma das cartas de Reed.

Estella,

Primeiro dia do acampamento de verão de beisebol. As instalações são muito boas. Temos um cartão livre para tudo-o-que-pudermos-comer na cafeteria. Dormimos em duplas nos quartos, com um banheiro compartilhado por andar. Me deram um idiota como parceiro. Há garotos no meu andar de todas as partes do país, e acabei ficando com esse perdedor. Aliás, tem um menino que veio da República Dominicana. Suponho que levem o beisebol muito a sério lá.

Durante a cerimônia de abertura, os treinadores falaram palavras como “legendário”, “prestigioso”, e “tradição de excelência” para descrever o programa de treinamento. Foi difícil não rir. Pareciam com o meu pai. Ele ainda crê que vai fazer eu me alistar. Vou saltar a tradição de excelência da família Winslow, de qualquer maneira.

Reed.

FIM DO TRECHO LANÇADO PELA SIMON & SCHUSTER

Via

TODOS OS DIREITOS DO LIVRO RESERVADOS À SIMON & SCHUSTER

Tradução, revisão e adaptação: HushHushers.

Considere o nosso trabalho e NÃO reproduza sem os devidos créditos!




ESPECIAL: O Cheshvan em 2016

No dia 02 de Novembro, de acordo com o calendário judaico, começou o Cheshvan. Essa época na Saga define o rumo da história dos livros e para de certa forma “comemorar” essa data, nós do HHBR resolvemos fazer um especial. Abaixo, você pode ler informações e curiosidades sobre o Cheshvan:

O que é o Cheshvan?

Segundo o Sêfer Yetzirah (um texto antigo da Cabala judaica), cada mês do ano judaico tem uma letra do alfabeto hebraico, um signo do Zodíaco, uma das doze tribos de Israel, um sentido e um membro controlador do corpo que correspondem a ele.

O Cheshvan é o oitavo mês do calendário judaico. Na Bíblia, Cheshvan é chamado chôdesh bul, da palavra mabul, “o dilúvio”. O dilúvio começou a 17 de Cheshvan e terminou no ano seguinte, a 27 de Cheshvan. No dia seguinte, Nôach (Noé) ofereceu um sacrifício a D’us (Deus) e D’us prometeu jamais enviar um dilúvio sobre a terra novamente para destruir toda a humanidade, e então revelou o sinal de Seu pacto com o mundo, o arco-íris.

Cheshvan é o único mês que não possui dias festivos ou mitzvot (tipos de mandamentos existentes nos 5 primeiros livros da Bíblia Hebraica) especiais. Aprendemos que este mês “está reservado” para o tempo de Mashiach (é a palavra hebraica para Messias, que significa um salvador ou “esperado como libertador”), que inaugurará o Terceiro Templo.

O Cheshvan é representado por:

Letra: nun

Zodíaco: akrav (Escorpião)

Tribo: Menashe

Sentido: olfato

Membro controlador: intestinos

Quanto tempo de duração?

O Cheshvan é um mês de outono de 29 dias, exceto em anos “completos”, no qual tem 30 dias. Cheshvan geralmente cai em Outubro-Novembro no calendário gregoriano. Em 2016 (no dia 03/10/16 iniciou-se o ano 5777 do calendário judaico), o Cheshvan vai de 02/11 até 30/11.

O Cheshvan na saga Hush, Hush:

Durante e somente no período do Cheshvan, anjos caídos podem possuir os corpos de nefilins, fazendo com que o anjo caído possa ter sensações físicas, mas é preciso que o nefilim tenha jurado lealdade. Durante esse período os “portões de possessão” dos nefilins estão abertos, já que é uma época sem feriados sagrados. Fora dessa época, os corpos de nefilins conseguem ser possuídos por não muito mais que alguns minutos.

Pesquisa e texto por: Hush Hushers. Não reproduza sem os créditos!




[FIXO] COMUNICADO: Sobre a falta de atualização no Hush Hushers

Quem acompanha nosso site desde o início, sabe que ele nunca foi muito atualizado. A única época em que o número de posts no site cresceu foi pouco antes do cancelamento do filme, pois rumores do cast (todos sabíamos que eram falsos, mas gostávamos de postar para gerar discussão e movimentação no fandom) saíam quase todos os dias.

Mas, depois do cancelamento do filme, o site quase nunca é utilizado. Não é por que nós não queremos, mas sim por que não temos o que postar. A situação ficou ainda pior desde o fim do ano passado, quando nada mais aconteceu no mundo de Hush Hush (além de tags no Twitter), nem no da Becca.

Atualmente, faz mais de 2 meses que a Becca não usa mais suas redes sociais regularmente, então realmente ficamos sem opções de notícias. Sabemos que Becca está afastada pois trabalha em um novo projeto, um novo livro.

Então, caso você entre aqui no site e veja que o último post foi há muito tempo, não se espante: não vamos abandonar o site nem o fandom.

Até que o filme/série da saga saia do papel, o site ficará assim. Com 1 post a cada 3 meses.

Esperamos que a divulgação do novo livro da Becca nos traga novidades frequentes. O Twitter continuará a ser atualizado como sempre. Também a galeria e o Facebook. E claro, nunca vamos desistir de ter a adaptação da nossa saga, seja filme ou série. Só isso traria de fato o renascimento do nosso site.

Espero que entendam!

Equipe Hush Hushers




[ENCERRADO] Ganhe uma cópia de Gelo Negro!

Promoção encerrada!

O Hush Hushers está com uma nova promoção!

O site vai sortear uma (1) cópia do novo livro de Becca Fitzpatrick, Gelo Negro!

Britt Pfeiffer passou meses se preparando para uma trilha na Cordilheira Teton, um lugar cercado por natureza e cheio de mistérios. Antes mesmo de chegar à cabana nas montanhas, ela e a melhor amiga, Korbie, enfrentam uma nevasca avassaladora e são obrigadas a abandonar o carro e procurar ajuda. As duas acabam sendo acolhidas por dois homens atraentes e imaginam que estão em segurança. Os homens, porém, são criminosos foragidos e as fazem reféns. Para sobreviver, Britt precisará enfrentar o frio e a neve para guiar os sequestradores na descida das montanhas. Durante a arriscada jornada em meio à natureza selvagem, um dos homens se mostra mais romântico do que perigoso, e Britt acaba se deixando envolver. Será que ela pode confiar nele? Sua vida dependerá dessa resposta.

Para participar, você deve:

Clicar em “Quero participar” no link da promoção no Sorteie.me;

Regras:

Observações:

  • O sorteio é válido somente para o Brasil;
  • Contas criadas somente para a promoção serão desclassificadas;
  • Ao não cumprir alguma das regras listadas acima, você será desclassificado e um novo sorteio será realizado;
  • O sorteio será feito pelo sorteie.me, portanto não temos influência no ganhador;

O sorteio será realizado no dia 18/07!

[ATUALIZAÇÃO] RESULTADO

O sorteio foi realizado no dia 18/07 e a vencedora foi Brenda Guerra!

oi




Conheça o novo HHBR!

O Hush Hushers está chegando à 100 mil visitas totais e por isso, nós decidimos comemorar com uma nova versão do site!

O novo layout foi feito pela Cristina do Secret Smile Design, que usou a capa de Sussuro para desenhar a página principal do site, que agora está em modo portal, facilitando a visualização das notícias.

A nossa galeria também está de cara nova!  Não deixe de conferi-la, são mais de 4 mil imagens!

Ainda, na nossa sidebar, agora é possível conferir os próximo evento de Becca por meio de uma agenda. Ela será atualizada assim que novos eventos forem divulgados.

Esperamos que vocês gostem no novo visual do site assim como nós gostamos, e agradecemos muito às quase 100 mil visitas!




Feliz aniversário, Becca Fitzpatrick!

Hoje, dia 03 de fevereiro, é um dia importantíssimo para os fãs da Saga Hush, Hush! Becca Roberts Fitzpatrick, nascida em Utah, foi um presente para sua família e irmãos. Desde pequena se interessava por histórias, mas não necessariamente em ser uma escritora. Quem se lembra da famosa história de que Becca gostaria de ser uma espiã?

Becca tentou várias outras profissões, desde ser secretária à professora, até que seu marido, Justin, a inscreveu em um curso de redação – devemos muito à ele! – e foi daí que seus livros e suas brilhantes ideias para suas histórias surgiram.

Sem seus livros, nós com certeza não estaríamos aqui hoje. E é por isso o motivo deste pequeno texto, mas que significa muito.

Não sabemos muito sobre a vida pessoal de Becca, mas não podemos deixar de desejar que ela comemore com a família e as pessoas que ama, que seja feliz e que continue a fazer o que mais gosta: escrever novas histórias.

Feliz aniversário, Becca Fitzpatrick!




Turnê de Black Ice: Becca em Los Angeles e Salt Lake City

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Becca começou a divulgar Black Ice no dia 07, data de lançamento do livro nos Estados Unidos. Com dois dias de divulgação até agora, ela já passou pelo Colorado, Califórnia e Utah. Clicando nas miniaturas abaixo, você confere as fotos disponíveis dos eventos realizados:

  • 08/10 Barnes & Noble: Huntington Beach – Los Angeles, CA:

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  • 09/10 King’s English – Salt Lake City, UT:

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Ajude a promover o filme de Hush, Hush!

Todos nós queremos um filme de Hush, Hush, certo? Que tal mostrar que vale à pena sim fazer um filme do livro? Assim, nós do HushHushers com a @ez1ne tivemos a ideia de juntar os fãs e mostrar o quando queremos o filme e como seria uma boa escolha fazerem o filme.

A ajuda de todos os Hushers é muito importante e por isso, se você quiser ajudar, basta fazer as seguintes coisas:

  1. Mandar um e-mail para a LD Entertainment (info@LDentertainment.com) dizendo que você gostaria do filme! É claro, sabemos que a produtora já está organizando algumas coisas do filme, mas é importante mostrar que os fãs são ativos.
  2. Mandar um tweet para a LD (@tweetLD) falando que você gostaria de noticias sobre o filme, como você gostaria de ver Hush, Hush nas telefonas, etc.
  3. Mande a edit feita por nós para a LD ou para o Patrick Sean Smith (@SEANSMITH74) se você não tiver domínio de inglês ou não confiar muito no Google Tradutor.

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Além disso, nós planejamos subir tags em três dias da semana, sendo eles segunda, quarta e sexta, às 19 horas, horário acessível a grande parte dos fãs.  A tag em mente é a conhecida #HushHushMovie, já usada pelo Patrick, além de ser mais fácil para formar frases.

Não pensamos só nos Hushers brasileiros, mas também como nos Hushers internacionais. Sendo assim, contamos com a ajuda da @TheHushHushSaga, @HushHushPH e @TheHushHushFans!

Qualquer mudança, será avisado em nosso Twitter (@HushHushers).




Becca: “Espero que a produção [do filme de Hush, Hush] comece em breve.”

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A entrevista de Becca Fitzpatrick foi ao ar hoje, nas Filipinas, com a pergunta “Por que  Hush, Hush é um bestseller?” Becca conversou com a entrevistadora Claire Celdran sobre a história não tão comum por trás do livro. Veja o vídeo e a transcrição abaixo:


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Feliz aniversário, Becca Roberts Fitzpatrick!

becca1]

exatos 1574 dias atrás, em 13 de outubro de 2009, foi lançado o primeiro livro da nossa tão querida série Hush, Hush, essa sem dúvida é uma data importantíssima para nós, pois sem ela o nosso amor por essa série não haveria nascido e muito menos este site. Mas mais importante que essa data, foi o dia 3 de fevereiro de 1979, que foi quando nasceu a pessoa que tornou possível todo esse sonho envolvendo, anjos caídos, nefilins, seres humanos com muito azar (ou muita sorte) e um filme que nunca sai. Nesse dia nasceu Becca Fitzpatrick, que hoje completa seus merecidos 35 anos.

Devido a mente brilhante de Becca, hoje ninguém aqui é a mesma pessoa de antes, descobrimos um novo mundo graças a ela, e novos mundos terão suas portas abertas por ela mais uma vez, o mais próximo nós poderemos acompanhar em Black Ice, que será lançado no dia 7 de outubro nos EUA.

Depois do que ela fez por nós e que ainda fará, nós só temos o que agradecer, e quem sabe, tentar retribuir, lançando ao mundo nossas histórias e palavras como ela fez. Porém, no presente momento, nós só podemos desejá-la um feliz aniversário e que depois deste venham mais 35 aniversários, e 35… E que com todos esses anos venham vários livros para preencher as nossas horas de tédio e MUITA felicidade na vida dela, pois afinal, não basta viver muito, é necessário viver bem.





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